“….a poiesis, o campo que abre e encerra todos os outros, que permite que a experiência da realidade signifique algo mais. O espaço da construção poética, do nosso movimento até à invisibilidade própria dos objectos, mas que é também um movimento até nós próprios. Onde reconhecemos não apenas o objecto, mas nos reconhecemos a nós próprios como seres-no-mundo, seres iminentemente mortais, seres poéticos e criativos. Uma reduplicação da realidade , como lhe chama Foucault. A poiesis é nessa proximidade da morte, a última possibilidade de as coisas se situarem algures para além do tempo, deixando e cravando sobre elas fragmentos da nossa própria existência e do nosso próprio corpo O segredo será sempre como o descobriu Perseu, nunca olhar directamente para o rosto pérfido de Górgona, mas sim, para o seu reflexo no escudo de bronze. Como diz Italo Calvino: É sempre na recusa da visão directa que reside a força de Perseu, mas não numa recusa da realidade do mundo de monstros em q...
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mais vale mudar o figurino do que morrer nas mãos do encenador Todas as cores são formas A matéria é cor Então, a matéria é forma? O que é a arte? O que é a pintura? A pintura é estrutura, é cor, pensamento e este o que é? Vem do fundo de mim ou da mulher de brinco que conteve o choro. Éramos dois, sempre. O encenador entrou no bar quando já não estava ninguém...só garrafas e copos vazios, estava agarrado ao compromisso do amor. Desapontado com o nascer do sol, mandou fechar a porta, as emoções acalmaram. Os momentos de dor maiores que o amor estavam a transformar a leveza em turbulência, a beleza em violência. Durante 25 anos nunca falou da sua arte, não por incapacidade ou desleixo mas por insuficiência de compreensão, desconhecimento. Nunca teve razões para esclarecer ou argumentar sobre questões que se colocam ao artista. Porque o faz? Qual a mensagem? E outras... Anos de embaraço sem respostas. Questionava-se sobre essas evidências de não ter projectos teóricos cap...
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A pintura pode propor caminhos de errância. Pode inventar geografias do mundo, plasmando afectos de lugares que só têm sentido quando se viaja sem bagagem e se está disponível para sentir o chão que pisamos. Ana Maria tem o sentido maior deste caminhar numa sublime paisagem – quase aérea, quase etérea – como se de um imenso rendilhado se tratasse. Afinal pode ser efémera ou nula a importância dos lugares de partida ou dos lugares de chegada quando, olhando este conjunto de pinturas e desenhos, nos apercebemos desta espécie de continentes flutuantes que não procuram nenhum porto como morada. É um trabalho de minúcia exaustiva, de contenção cromática, caminhos de fragmentos que se alinham e desalinham, que se aproximam e se afastam, numa lógica que a própria pintura sustenta e alimenta. É um trabalho que não procura diluir fronteiras entre elementos – a terra e a água (o mar) – aqui assumidos como lugares simbólicos: a pintura alastra, quase ten...